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domingo, 15 de maio de 2011

Porque a vida vale à pena.


Na última edição da revista, o artigo publicado nesta coluna recebeu o título “Tá, mas você vai ser professor?”, e até agora não sei por que ele foi o primeiro a ser lançado. Tudo bem que, como porta de entrada, deu o seu recado à respeito de uma profissão bastante desprestigiada, mas que se percebe imprescindível, além de dar aquele “oi, eu sou a Ketiley Pessanha” super especial aos leitores que estão se juntando a nós, aos poucos.

Agora que fomos devidamente apresentados, acho que me esqueci de mencionar umas coisinhas... Este canto da revista não é só de desabafo, nem mesmo de contar somente as minhas experiências como aspirante à professora. Afinal de contas, a vida não tem um caminho só, tão pouco as vontades devem ser reduzidas. Devemos nos permitir, sempre. E foi pensando nisso, que resolvi fazer uma reciclagem de sentimentos, aliás isso é bastante recorrente. Não sei se é um mal de quem está na casa dos “20 e poucos anos”... Vou descobrir.

Ainda que de idade ou de espírito, seremos eternamente jovens, isso é fato. Mas nem sempre foi desse jeito. Na adolescência sentimos uma vontade estúpida de crescer, de ter 18 anos para poder ser mais independente, e todos os outros clichês que ouvimos por aí. Eu já fui assim, quem não foi? Agora é a vez dos meus alunos sentir essa vontade, tem uns que abusam desse sentimento, às vezes (risos).

Tenho uma turma, em especial, de uma instituição pública que me comove. Vemos a precariedade da escola, a falta de recursos, no entanto, aqueles jovens não desanimam nunca. Enquanto ninguém parece acreditar no potencial deles, surgem de forma inesperada, abertos à trocas e conselhos. Muitos vieram de comunidades carentes que sofrem com a falta. Do que? De tudo! A única saída para esses alunos é a escola, e tudo o que podem retirar dela.

Obviamente que não são todos, contudo, quando se trata da maior parte, nós professores entendemos que é a turma toda, e vamos em frente. Também não sei de onde vem a força que nos impulsiona, que me impulsiona, já que, para falar a verdade, eu nunca quis lecionar. Meu sonho de consumo sempre foi o de ser advogada, e ainda carrego este sonho comigo. Sei que enquanto não o realizo, “defendo” ou “acuso” dentro do que eu faço no momento.

À priori, defendo os interesses desses cidadãos que querem ser alguém nessa vida. Não querem apenas ter os tais “18 anos” e ter independência, mas querem ter conhecimento, querem ler, escrever, entender e sentir, para que isso seja passado a diante. Vejo naqueles meninos futuros professores, jornalistas, advogados; vejo, antes de tudo, amigos que fiz para toda vida.

Quando conversamos sobre essa fase inquietante que estão vivendo, conto um pouco da adolescente que fui, dos meus medos e anseios, e sinto que a gente se conecta. Para as meninas, uma coisa legal que realizei com a maioridade, foi poder ser assinante da revista “Capricho” ₢ da qual fui e sou tiete (risos). Claro que todos riram com isso, fizeram piadinhas, mas eu sobrevivi, e as revistas continuam a chegar, quinzenalmente.

Sabemos o quanto é difícil “ser de maior”, pagar contas em dia, se virar com seu próprio sustento. É gratificante demais, mesmo quando sobra mais mês do que salário lá pelo dia 28...Ainda assim, converso que para tudo isso aconteça no tempo certo; sei o quanto eles querem aliviar os pais com relação a gastos e tal, só que, quando atropelamos o tempo, ele não retorna para vivenciarmos tudo outra vez, com mais calma. A efemeridade respira conosco.

Quem de nós não cresceu ouvindo dos responsáveis o quanto temos de dar o devido valor aos estudos, às oportunidades, pois, na época deles não tiveram isso. E vai ser eternamente assim. Nascemos e crescemos para que a nossa descendência tenha tudo o que não tivemos, visite lugares que não visitamos, que deguste sabores nunca experimentamos. É uma espécie de nos realizarmos no outro.

Buscaremos o melhor para a nossa prole, sim, mas nada impede que tiremos proveito da vida enquanto a gente pode, e não é pelas adversidades que iremos perder o fôlego. Nem podemos.

Devemos perder o fôlego sim, ao conversar durante horas com o melhor amigo, ao dar uma risada de repente. Precisamos viver da melhor forma possível, pensar positivo e curtir cada fase da vida, sem pressa, mas com intensidade.

E se alguém me perguntar por que toda essa importância dada à esses alunos, direi imediatamente: porque são seres humanos como todos nós, devem ter chances iguais como todos nós, e porque vale a pena, sempre, ser a favor da vida, seja a de quem for.

Ketiley Pessanha, para a revista Empty.